http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2809200806.htm
ELEIÇÕES 2008 / LEGISLATIVO
Setor imobiliário é o grande financiador dos vereadores de SP
Das 7 empresas que mais doaram aos 55 legisladores eleitos em 2004, 6 são do ramo de construção, venda e locação de imóveis
Ex-secretário diz que, como toda a legislação urbana passa pela Casa, é natural que setor busque "contato maior com os vereadores"
RANIER BRAGON
EM SÃO PAULO
Um dos principais ramos de atividade que financiaram a campanha dos candidatos a vereador em 2004, as empresas do setor imobiliário tiveram vários temas de seu interesse debatidos e votados nos quatro anos da atual legislatura.
Levantamento feito pela Folha mostra que pertencem ao setor imobiliário (construção, incorporação, venda, administração e locação de imóveis) 6 das 7 empresas que mais doaram às campanhas dos 55 vereadores eleitos em 2004. Os doadores da atual disputa só serão conhecidos após a eleição.
Um dos primeiros projetos de interesse do setor que chegou para apreciação dos vereadores foi o que excluiu a área reservada às garagens do cálculo que define o limite de metros quadrados a ser construído em um terreno. Na construção de um prédio residencial, a empresa tinha, desde fevereiro de 2005, de incluir o espaço das garagens na contagem da área total que tinha direito a construir, o que diminuía o espaço dos apartamentos e encarecia o empreendimento.
De autoria do Executivo, o projeto era defendido pelo setor como uma das prioridades legislativas e foi aprovado definitivamente por 41 votos a 1 no final de agosto de 2005. "O cômputo de garagens como área útil havia paralisado o mercado", afirmou na ocasião o presidente do Secovi-SP (sindicato das construtoras e imobiliárias), Romeu Chap Chap.
"Toda a legislação urbana, que é de interesse dessas empresas, passa pela Câmara, como é o caso do plano diretor. Então, é natural que essas empresas busquem um contato maior com os vereadores, embora eu não veja uma relação tão clara, já que boa parte das doações feitas aos vereadores é conseguida pelos deputados federais", diz o ex-vereador Nabil Bonduki (PT), autor de livros sobre habitação, ex-superintendente de Habitação Popular de Luiza Erundina (1989-1992) e ex-presidente do Sindicato dos Arquitetos de São Paulo.
Um dos principais temas que uniram vereadores e o setor imobiliário nesta legislatura ocorreu em 2007, quando a Câmara aprovou projeto que tirava poder do Conpresp (conselho do patrimônio histórico), órgão que havia contrariado interesses das empresas imobiliárias ao fazer tombamentos e restringir a altura dos edifícios que poderiam ser erguidos no entorno dos bens tombados.
Após pressão contrária, a Câmara amenizou o projeto, mas mesmo assim ele foi vetado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM). Na ocasião, outro levantamento da Folha mostrou que 43% dos vereadores tinham recebido em 2004 doações de empresas do setor.
Em pesquisa nos projetos debatidos e aprovados entre 2005 e 2008, há registro para ações que, em tese, desagradaram o setor. Um deles foi o projeto que estabelecia a obrigatoriedade de uma hora grátis para estacionamento em shoppings, supermercados e bancos. Aprovado pela Câmara em maio de 2005, foi vetado pelo prefeito José Serra (PSDB) sob o argumento de que o projeto interferia indevidamente em atividade privada.
Outro lado
Empresas se calam e vereadores negam lobby em favor do mercado imobiliário
EM SÃO PAULO
As empresas que mais doaram aos vereadores paulistanos eleitos em 2004 não se manifestaram. Os vereadores negaram que o dinheiro os tenha influenciado a votar ou agir conforme os interesses do setor.
Arselino Tatto (PT) -que recebeu doação da AIB (Associação Imobiliária Brasileira)- afirmou que "nunca existiu nem existirá contrapartida."
Toninho Paiva (PR) -doação da Center Leste Empreendimentos LTDA- também negou pressão e disse que a doação se deu devido a "vínculo de amizade pessoal".
O vereador Natalini (PSDB) disse supor que é "política da empresa OAS" contribuir com alguns vereadores. "Fui procurado pela OAS e não vi motivo para recusá-la." Segundo ele, que ressalta não ter tido nenhum contato com a OAS após a campanha de 2004, a doação se repetiu agora.
Já o vereador Farhat (PTB) -doação recebida da AIB- atribui o dinheiro recebido à indicação ao grupo de "cinco melhores vereadores da Câmara Municipal de São Paulo pela entidade Voto Consciente". Ele nega lobby. "Fui um dos maiores críticos (...) em relação às edificações que foram sendo erguidas descomedidamente."
A assessoria de Dalton Silvano (PSDB) -doação da AIB- diz que ele não se recorda de ter mantido contato com a associação e acrescenta: "É bom frisar que ele (Silvano) é totalmente contrário ao adensamento populacional (verticalização sem controle), sendo autor de proposituras que contrariam o interesse das construtoras".
O vereador João Antonio (PT) -também beneficiário de doação da associação- diz que seu mandato "nunca condicionou doações a defesa de interesses de quaisquer doadores". Mas ele defende que as entidades tenham "liberdade de opinar sobre o que propõe, pensa, discute ou delibera a Câmara".
Chico Macena (PT) -doação da Center Leste Empreendimentos- afirma que a empresa contribuiu devido às propostas de sua campanha, afirmando que não teve contato com ela depois. A assessoria de Domingos Dissei (DEM) negou relação entre doação da AIB e a sua atuação e disse que "os apoiadores contribuem por acreditarem no trabalho dele".
ELEIÇÕES 2008 / LEGISLATIVO
Empresas bancam campanhas à reeleição
Construtoras e transportadoras são, até o momento, os maiores doadores individuais de vereadores que buscam outro mandato
Parlamentares paulistanos declararam à Justiça que já receberam cerca de R$ 8 mi em recursos nesta eleição;R$ 3,1 mi de pessoa jurídica
AFONSO BENITES
DA REDAÇÃO
Empréstimo bancário, venda de veículo, doações de familiares, recursos do partido, de construtoras e de transportadoras estão bancando as campanhas eleitorais de 37 vereadores candidatos à reeleição em São Paulo.
Dos 52 parlamentares paulistanos que disputam a reeleição, 37 responderam a questionário enviado pela Folha perguntando, dentre outros assuntos, quem era o seu maior doador até o momento.
Conforme a segunda prestação de contas parcial entregue pelos candidatos ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral), os candidatos à reeleição já receberam juntos cerca de R$ 8 milhões para as campanhas. Empresas doaram cerca de 40%, desse valor -R$ 3,1 milhões.
Pessoas físicas foram responsáveis por R$ 1,7 milhão. Os próprios candidatos informaram que desembolsaram juntos R$ 1,3 milhão. Os partidos e comitês de candidaturas financiaram mais R$ 1,6 milhão.
O montante que as empresas investem em candidaturas geralmente é maior do que o as pessoas físicas. Enquanto as maiores doações de pessoas física chegaram ao teto de R$ 30 mil, as de jurídica enchem os cofres das campanhas. A que menos doou entre os parlamentares que responderam ao questionário desembolsou R$ 20 mil, e a que mais doou, R$ 100 mil.
Dos seis vereadores que declararam ter recebido mais recursos de empresas, cinco falaram que seus maiores doadores foram construtoras -algumas delas também atuam no mercado imobiliário. São eles: Celso Jatene (PTB), Alfama Construtora; Mara Gabrilli (PSDB), Camargo Corrêa; João Antonio (PT), OAS; José Rolim (PSDB), Engeform; e Goulart (PMDB), Kallas Home Station Empreendimentos.
Carlos Bezerra Jr. (PSDB) afirmou que seu maior doador é a transportadora Realrotec, que atua em Guarulhos.
Outros 15 vereadores disseram que seus maiores doadores ou foram pessoas físicas ou eles mesmos. Nesse grupo está o presidente da Câmara, Antonio Carlos Rodrigues (PR), que, sem citar valores, diz ser o que mais investiu na candidatura.
Attila Russomanno (PP), que é de uma família de políticos, diz que seu maior doador é o irmão Mozart, deputado estadual. Gilberto Natalini (PSDB) e Adilson Amadeu (PTB) afirmaram que botaram a mão no bolso para pôr a campanha na rua. Natalini diz ter feito um empréstimo bancário, enquanto Amadeu fala que vendeu um veículo, no valor de R$ 62.574.
Partidos
A vereadora Noemi Nonato (PSB) e os vereadores petistas Beto Custódio e Francisco Chagas disseram que a maioria de seus recursos provém dos próprios partidos.
Outros 13 parlamentares não revelaram quem são seus maiores doadores. Limitaram-se a dizer que a prestação parcial de contas foi entregue ao TRE, que a divulgará após a eleição.
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