Criminalidade urbana: o crime como profissão

O texto que segue (que tentei copiar, espero que consegui) catei num site http://www.osurbanitas.org/ de difícil leitura (para quem se venturar, está na "os urbanitas no. 7" piscando "novo!").

Acho que tem tudo a ver com o que tanto discutimos para entender e combater a lógica perversa que enfrentamos, que em resumo é a "criminalização da sociedade", pela precarização do trabalho nesta fase de capitalismo financeiro, pela individualização; uma lógica "do mercado" que faz de cada sujeito um (potencial?) criminoso (se já não é).

Falo isso para entendermos melhor os processos nos quais estamos inseridos: da criminalização dos movimentos sociais, do sutil discurso e práticas atuais na implementação de políticas nada públicas em sampa.

Não é um texto conclusivo mas fiquei cruzando os argumentos da autora com os textos que o Estadão publicou ontem sobre as MegaCidades e fiquei abismado....
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Criminalidade urbana: o crime como profissão
Marisa S. Neres

Socióloga
Professora substituta de Sociologia da Universidade Federal de Goiás e
Professora adjunta do curso de Direito da Faculdade de Jussara.

Os objetivos do texto que se apresenta a seguir são os de realizar algumas reflexões acerca da temática criminalidade urbana; apresentar o conceito de crime como profissão a partir do referencial teórico da sociologia; realizar algumas reflexões que permitam clarificar alguns aspectos da criminalidade urbana e suas implicações nas relações sociais que compõem a trama do tecido social. O trabalho se compõe de pesquisa bibliográfica sobre os conceitos de crime, crime como profissão, capitalismo e consumo e de entrevistas realizadas com reeducandos da Agência Prisional do Estado de Goiás que atuavam no tráfico de drogas. Para a realização das entrevistas, buscou-se, inicialmente, fazer contato com pessoas que: a) atuassem no tráfico de drogas, b) que não estivessem na prisão e c) que se dispusessem a relatar suas experiências no crime. Este método mostrou-se inviável. Chegou-se a fazer contato com tais pessoas; contudo, as mesmas se mostraram pouco dispostas a expor suas histórias por temerem qualquer implicação posterior decorrente de suas declarações. Assim, empreendeu-se a tentativa de realizar as entrevistas com pessoas que estivessem cumprindo pena no sistema prisional do Estado por crimes que podem ser incluídos no perfil de crime como profissão. Foram entrevistadas três pessoas do sexo masculino que cumprem pena por tráfico drogas. As entrevistas com dois reeducandos foram gravadas e uma entrevista não foi gravada devido ao fato de o entrevistado não ter concordado com esse tipo de registro. Neste caso, foram tomadas notas de seu relato. Na condução das entrevistas, os reeducandos foram estimulados a contar sua história de vida relatando-a desde antes do envolvimento com o crime, de que modo aconteceu o envolvimento, quais foram suas motivações, como se constitui o funcionamento da atividade e seu posicionamento moral e ético diante da mesma. Com este método objetivou-se obter informações cujos elementos pudessem explicar que ocorrências na vida dos entrevistados os fizeram aderir ao crime e que motivações os faz adotarem a prática de crimes, nela permanecendo. Buscou-se, também, obter informações sobre como se organizam as atividades, suas especificidades, sua lógica, suas regras e o posicionamento dos reeducandos em relação às mesmas, demonstrando que visão eles têm destes tipos de crimes e de si mesmos diante das atividades que exercem.

Por meio das informações obtidas nas entrevistas, buscou-se verificar se os crimes praticados pelos entrevistados poderiam, ou não, ser definidos como sua profissão.

Inicialmente os entrevistados se mostraram um pouco tímidos; mas, após os esclarecimentos da natureza e objetivos da pesquisa, mostraram-se mais à vontade, acessíveis e dispostos a relatar suas experiências. Seus nomes foram alterados para manter o sigilo de suas identidades. Dito isto, serão apresentados, a seguir, individualmente, os relatos das entrevistas e sua análise.

Jean – A vida antes do tráfico
Jean nasceu em uma cidade do interior do estado de Goiás e com 7 anos mudou-se para Goiânia com a família, formada pela mãe e pelos irmãos. Nunca chegou a conviver com o pai, que faleceu quando ele ainda era criança. Estudou somente até a terceira série do ensino fundamental e por volta dos 13 anos de idade começou a trabalhar como engraxate em um terminal de ônibus de Goiânia. Foi onde tudo começou. "Foi o grande erro da minha mãe: deixar eu engraxar naquele lugar". Foi nessa época que ele se envolveu com o crime pela primeira vez. Ao ouvir sua história de vida tem-se a impressão de que não há muito o que contar sobre um período sem o crime, sem o tráfico e é o que ele mesmo diz: "meu decorrer da minha vida foi mais do crime". O que o seduziu foi o dinheiro abundante e "fácil"

O envolvimento com o tráfico

Jean, de vinte e seis anos de idade quando a entrevista foi realizada, cumpria pena por tráfico de drogas. Foi preso com 400 latas de merla, produto com o qual trabalhava. Era, relatou ele, químico, "mágico, bruxo" . Para conseguir o dinheiro para comprar o produto recorria constantemente ao roubo. Sua história no crime começa ainda criança, quando trabalhava como engraxate no terminal de ônibus e, desenvolvendo-se nessa atividade, iniciou seu envolvimento com o tráfico de drogas em São Paulo, onde morou por três anos. Depois migrou para a cidade de Campinas (SP) e dali foi para o estado de Goiás.

Neste estado começou a traficar a merla porque, segundo ele, em Goiás o produto mais comercializado em termos de drogas é a este, o que é confirmado por alguns dos dados apresentados sobre o tráfico de drogas em determinadas regiões de Goiás e do Distrito Federal no livro "Cabeça de Porco" (2005). Segundo os autores (Soares, Bill e Athayde) do livro, há uma rede organizada para produção, distribuição e venda de merla; além disso, há uma grande quantidade de famílias que vivem do tráfico da droga nessas regiões. "Eu me encontrei no tráfico e aí comecei a viajar. Fui pro Paraguai, de lá fui pro Chile e não parei mais".

Uma das motivações que guia quem entra no crime, segundo Jean, é a de ganhar dinheiro e adquirir bens materiais.

"Eu consegui isso; comprei carro, comprei casa, zoei Goiânia daquele jeito. A polícia ficou louca pra me pegar. Inclusive, se eu tirasse minha camiseta pra você ver minhas costas, eu tenho tiro nas costas, tenho tiro na barriga, entendeu? Na nádega, dos lados, eu tenho tiro; tenho tiro no braço. Então, o seguinte: acontece que eu consegui, mas a polícia toma. Não adianta. Não adianta pensar que ele vai ganhar sempre; ele vai perder. Mas no começo é o dinheiro. Você pode ter certeza. O dinheiro faz, porque é muito dinheiro. É dinheiro demais. Eu não sei onde o povo arruma tanto dinheiro pra comprar a droga. É dinheiro demais; é dinheiro demais. Eu cheguei, já, a pegar quinze mil reais numa noite, lá na Paranaíba. Porque é fácil demais. Quem não quer um dinheiro fácil? Não, explica pra mim: quem não quer? É dinheiro demais. Eu já cheguei a jogar, assim, na minha cama, aquele tanto de dinheiro e olhar assim. Até já tirei foto das minhas armas com o dinheiro e achava aquilo bonito: 'puxa é dinheiro demais, cara!'. O negócio mais das drogas é o dinheiro; você pode ter certeza. Todo mundo que conversar com você vai falar a mesma coisa: é o dinheiro; é dinheiro demais".

Outras motivações apontadas para que o indivíduo entre nas fileiras do tráfico são a influência das companhias e maior sucesso com as mulheres. Aquele indivíduo que está no tráfico costuma se apresentar trajado com certas roupas e calçados, possuir motos e outros objetos de consumo que são alvo comum do desejo dos jovens. Muitos jovens se envolvem com o tráfico porque vêem, ali, a oportunidade de ter acesso aos desejados bens de consumo e, por outro lado, porque é mais fácil conquistar as mulheres. Segundo Jean, há muitas mulheres que preferem se relacionar com um traficante porque sabem que ele pode lhes oferecer bens materiais que um trabalhador comum não poderia.

O funcionamento da atividade
O traficante que adquire quantidades consideráveis de drogas, como era o caso de Jean, distribui tanto para os usuários quanto para outros traficantes que comercializam o produto. Uma estratégia comum de venda, utilizada por Jean, era a de infiltrar vendedores de drogas dentro de faculdades, onde, segundo ele, a clientela é farta e muito lucrativa. Há tanto homens quanto mulheres vendendo drogas dentro das faculdades, declarou. Ele explicou que procedia da seguinte forma: encontrava uma faculdade onde haveria boa clientela e constatava se valia a pena infiltrar um traficante ali. Então, encontrava uma pessoa que tivesse condições de se matricular na faculdade como um aluno comum. Explicou ele:

"Eu pego uma pessoa que é cabeça; uma pessoa interada que quer um dinheiro. Aí eu falo pra ele: 'aí, você quer um dinheiro mesmo?' 'Quero'. 'Aí, você tá andando de quê? De Chevette? Não; vamos colocar um Corsa na sua mão, pra você começar'. Aí o cara: 'uai que é isso?!' E já se interessa".

Neste trecho da conversa ele foi questionado: "tudo envolve muito dinheiro não é?" E respondeu:

"Muito dinheiro. Justamente. O crime, ele só é o crime por causa do dinheiro; se não tiver um dinheiro no meio ele não é o crime, não tem nada a ver com o crime. E o crime só é o crime por causa da droga. Hoje os ladrões roubam por causa da droga, entendeu? Tudo quanto é tipo de ladrão, por causa da droga: pra usar, pra vender. Eu mesmo. Era o meu caso, entendeu? Eu cheguei a roubar, mesmo. Roubei Ótica, roubei dinheiro de pagamento de algodão, pagamento de tomate, já roubei. Pra quê? Pra investir meu dinheiro. Pegava cinco pessoas ali e: 'vamos roubar lá? 'Vamos.' Metia o revólver, tomava, chegava com o dinheiro, punha o dinheiro no meu colo, fazia pilhas do dinheiro".

É comum o envolvimento no tráfico de pessoas de classes economicamente privilegiadas. Um indivíduo (um advogado, por exemplo) que tem dinheiro e tem interesse em entrar para o tráfico, motivado pela lucratividade do negócio, mas não tem o conhecimento (das pessoas certas e/ou de como transformar a matéria-prima) necessário para adquirir a droga para revenda, associa-se a uma pessoa como o entrevistado, que possui o conhecimento necessário para adquirir o produto. Assim, forma-se uma parceria: um fornece o capital necessário -- faz o investimento -- e o outro entra com a mão-de-obra, o conhecimento necessário para que o "negócio" seja viabilizado. A lucratividade, para ambos, é alta. Há, também, aqueles indivíduos que possuem um estabelecimento comercia e entram para o negócio fornecendo o dinheiro necessário para adquirir a droga e utilizando o comércio para a "lavagem" do dinheiro do tráfico. É muito conveniente este tipo de arranjo, explicou, porque a polícia dificilmente suspeitará dele e ele terá um bom motivo para justificar sua prosperidade material.

Entre as diversas estratégias utilizadas para comercializar a droga é utilizado o serviço de entregadores conhecidos como "motoboys". De acordo com Jean, é muito vantajoso utilizar-se destes serviços para realizar entregas de droga porque o entregador não precisa saber que produto está transportando e porque é menos suspeito para a polícia. Ele relatou que no presídio há indivíduos que trabalhavam como motoboys cumprindo pena por terem sido capturados pela polícia transportando drogas sem saber o que estavam transportando. Esses indivíduos são motivo de gozações entre os reeducandos, informou.

Questionado sobre o que passa a representar o crime e essa vida no crime para o indivíduo, Jean respondeu que a atividade no tráfico passa a representar o trabalho dele. Explicou que, às vezes, ao sair de casa, dizia para a namorada que estava indo "trabalhar" e este "trabalho" significava encontrar potenciais objetos de roubo, planejar e executar a ação. O dinheiro do roubo serviria para ser investido no tráfico. Ou, então, este "trabalhar" poderia significar distribuir o produto, fiscalizar os "aviões ", recolher o dinheiro da venda das drogas, cobrar dos aviões que pegavam o produto e não pagavam. Ao voltar para casa com grandes quantidades de dinheiro ele relata que o mostrava para a namorada e dizia que ali estava o resultado de seu trabalho.

Lúcio – A vida antes do tráfico

Esta entrevista não pôde ser gravada, pois Lúcio não concordou com a gravação. Disse que se sentiria mais seguro e mais à vontade se nossa conversa não fosse gravada. Com 54 anos de idade, já havia cumprido quase cinco anos de sua pena por tráfico internacional e receberia, em breve, liberdade condicional. Lúcio informou que antes de entrar para o tráfico tinha uma vida estável de um membro de classe média. Disse que sua família, na infância, não era rica; mas que seu pai sempre trabalhou honestamente e que todos os filhos (cinco no total) tiveram estudo. Ingressou na faculdade para cursar agronomia e chegou a completar o primeiro ano. Porém, nesta época, sua namorada (que é até hoje sua esposa) ficou grávida e ele se casou. Com a responsabilidade de cuidar de uma família ficou inviável continuar os estudos. Contudo, conseguiu se estabelecer de forma satisfatória trabalhando com venda e assistência de máquinas agrícolas no estado de Mato Grosso. Conquistou grande respeito e confiança de seu empregador por sempre ter agido honestamente em sua forma de proceder no trabalho. Daí, obteve promoções e conquistou, segundo ele, considerável êxito material. Teve três filhos, aos quais diz ter dado tudo o que pôde do melhor, inclusive a formação universitária de todos. O filho mais velho pôde estudar no exterior, onde está morando atualmente, tendo se casado e tido uma filha, única neta que o entrevistado ainda não conhece pessoalmente. Afirmou que todos em sua família se gostam e se respeitam muito, que são muito carinhosos uns com os outros, que os filhos, a mãe e o pai beijam-se no rosto e que sempre tiveram um diálogo franco e aberto a respeito de qualquer assunto, inclusive do tráfico. A respeito desta franqueza com os filhos sobre o tráfico, Lúcio relatou que, certo dia, quando já estava envolvido com o crime e realizando a manipulação, a preparação da cocaína necessária para o consumo, chamou seu filho, na época com treze anos, e disse a ele "você sabe o que é cocaína, filho? É isso aqui: olha, pega, sente a textura e o cheiro". "É parecido com éter, o cheiro, né pai?", respondeu o menino. "Pois é filho; eu estou te mostrando pra ninguém te enganar por aí. Se alguém te mostrar isso e quiser que você use, você já sabe o que é". E, em seguida, explicou ao filho quais os efeitos da droga no corpo e quais as conseqüências para a saúde de quem a usa. Relatou que em sua família ninguém, jamais, se envolveu com o uso de drogas, inclusive de álcool ou cigarro.

O envolvimento com o tráfico
A ganância pelo dinheiro: o desejo de ficar rico foi o que motivou Lúcio a entrar para o tráfico. Pensava -- e ainda pensa -- que o trabalho honesto, tradicional, não deixa ninguém rico, o máximo que se consegue é viver com algum conforto. O tráfico de drogas, acreditava, seria o caminho que o levaria a ficar rico conforme desejava. Alegou que via escândalos políticos, casos de corrupção e desvio de dinheiro público que ficavam na impunidade e os culpados enriquecendo. Pensou que em seu trabalho com as máquinas agrícolas nunca conseguiria o êxito material que desejava e, por outro lado, pensava que tantas pessoas cometiam tantos crimes, tantos erros, não eram punidas e enriqueciam, que não seria ilícito, de acordo com sua visão, traficar drogas.

Perguntado se ele teve influência de algum amigo ou familiar na decisão de entrar para o tráfico, afirmou - e enfatizou - que não. Esta foi uma iniciativa totalmente sua. Ele queria entrar para o tráfico de qualquer modo porque sabia que era muito lucrativo: "eu quis entrar; foi uma escolha minha. Ninguém, nunca, me chamou pra entrar; eu quis porque sabia que dava muito dinheiro".

A entrada para o tráfico, relatou, não é, contudo, tão fácil. Não basta querer. Ele argumentou:

"Eu posso te dar um quilo de coca agora pra você vender.Você pode fazer 50.000 reais com ela. Mas como você vai conseguir? Você vai bater de porta em porta oferecendo? Vai oferecer pra qualquer um? Não pode. Você tem que ter as pessoas certas pra quem vender, senão você não consegue nada".

É necessário conhecer a pessoa ou as pessoas certas que possam introduzir o novato no mundo do tráfico, fornecer um mínimo de informações necessárias para adquirir o produto e formar uma clientela.
Nesta época, conheceu um ex-presidiário traficante que foi quem forneceu as informações necessárias para que ele se iniciasse no "negócio". Este traficante lhe forneceu informações de onde, com quem e como conseguir o produto que, neste caso, era a cocaína. A fonte de seu produto, a cocaína, era a Colômbia e, assim, sozinho, somente com as informações fornecidas pelo traficante, viajou, fez contato e voltou para o Brasil com o produto. Chegando aqui, o traficante o ajudou a vender o produto e deste modo começou a formar uma clientela. Então, ele havia conseguido entrar no negócio, o meio que proporcionaria o desejado enriquecimento. A partir daí, abandonou seu emprego com as máquinas agrícolas e passou a dedicar-se exclusivamente ao negócio do tráfico.

O funcionamento da atividade
Honestidade no tráfico é essencial, de acordo com Lúcio. Da mesma forma que conquistou a confiança de seu empregador no trabalho com as máquinas agrícolas por sua honestidade, também ganhou a confiança de seus fornecedores na Colômbia e, assim, aprendeu o necessário para se tornar um "químico", ou seja, aquele que consegue trabalhar a matéria prima, a cocaína pura, e transformá-la para aumentar a quantidade e produzir seus derivados.

Lúcio explicou como é feito o processo, que considera muito simples. Ele consegue, por exemplo, transformar um quilo de cocaína pura em quatro quilos de cocaína mista. Neste caso, uma parte da cocaína é misturada com outros produtos químicos que garantirão o efeito esperado pelo usuário e garantirá a maior quantidade da cocaína a ser vendida, o que proporcionará maior lucro. É preciso conhecer minúcias como o grau de umidade atmosférica e a quantidade certa dos produtos utilizados para que o produto final seja de boa qualidade, garanta a satisfação e lealdade dos clientes e, conseqüentemente, altos lucros. Durante três anos permaneceu viajando para o exterior. Em geral, lá mesmo fazia a transformação do produto e voltava para o Brasil com a mercadoria pronta para ser vendida e consumida. Chegando ao Brasil, cuidava de fazer a entrega para sua clientela que, segundo conta, era muito variada. Contava com traficantes distribuidores, advogados, juízes e vários outros membros das classes altas da sociedade. Esta cocaína, de melhor qualidade, era distribuída em várias partes do Brasil, inclusive em pousadas de cidades litorâneas, onde os proprietários sempre têm o produto para fornecer a seus clientes especiais, inclusive estrangeiros, que gostam de fazer uso da droga.

O traficante experiente e esperto sabe que há um código de conduta a ser seguido para evitar cair em armadilhas e ciladas dos colegas de atividade mais gananciosos. Por exemplo: um traficante jamais deve informar a alguém quando chegará sua mercadoria. Com esta informação, um colega que esteja "de olho" pode armar uma cilada e até matar o outro para ficar com seu produto. Contudo, os que agem desta forma são passíveis de sofrer fortes punições, que, em geral, são sua morte e/ou de sua família. Em uma operação de distribuição, se o traficante for pego pela polícia com a cocaína deve assumir total responsabilidade pelo produto; não deve, de forma alguma, delatar seus companheiros e chefes, principalmente os chefes, pois a punição é a sua morte e de sua família. Por isso a regra do silêncio é tão forte. E é por isso, de acordo com Lúcio, que os grandes traficantes dificilmente são capturados pela polícia. Eles mesmos nunca lidam diretamente com o produto, com seu transporte e distribuição. Assim, estão menos passíveis de serem presos e quando algum de seus empregados é capturado jamais denuncia o dono do negócio, o líder ou líderes da quadrilha.

É importante, no negócio do tráfico, encontrar formas de lavar o dinheiro. Há os mais diversos meios utilizados para realizá-la: métodos engenhosos, criativos que, em geral, contam com a corrupção, tanto pública quanto privada. Relevante, também, é a criatividade dos traficantes em encontrar meios de exportar as drogas. É comum a montagem de empresas falsas, fantasmas, que funcionam como fachada para o escoamento da droga. É o caso de várias empresas de exportação. Algumas até trabalham com o produto que anunciam, mas estes produtos são utilizados como disfarce para o envio de drogas para os mais diferentes lugares. Não obstante a ação da polícia, é comum que empreendimentos assim sejam bem-sucedidos.

Além de ser "químico", Lúcio era também um distribuidor competente e de admirável sangue frio quando estava em ação, o que é considerada uma característica importante para quem atua no tráfico. A respeito desta tranqüilidade ao executar sua atividade ele deu o seguinte exemplo:

"Quando eu chegava com o produto aqui no Brasil, tinha que sair viajando pra distribuir. Pra facilitar eu viajava de avião, porque o país é grande demais pra ficar viajando pra lá e pra cá de carro. Então eu fazia a barba, cortava o cabelo muito bem cortado, muito bem alinhado, vestia os melhores ternos, sabe, bem cortado, bem no meu tamanho, de tecido bom, nem um advogado num tribunal se vestia tão bem quanto eu. Usava uma pasta de executivo, sabe, das boas mesmo. Aí viajava de primeira classe. Tinha aeroporto que eu chegava que tinha que passar pelo posto da Polícia Federal, eu passava sem problemas, não tinha suor nas mãos, calafrios pelo corpo, ou coração acelerado. Passava tranqüilo, nunca levantava suspeitas e então fazia a entrega da droga pra quem tinha de fazer".

Outra questão importante, ressaltada por Lúcio, é que o traficante de verdade, que trabalha bem e ganha muito dinheiro, não pode, nem deve, fazer uso da droga, pois seus efeitos atrapalham a concentração, a memória, o autocontrole, etc. Nas suas palavras, "traficante ralé, pé de chinelo, pobre" é aquele que se tornou viciado e passa a traficar, ou roubar e assaltar somente para manter o vício . Ressaltou ainda que agia com absoluta honestidade tanto em negócios com fornecedores, quanto com consumidores. A lucratividade do negócio é impressionante. Com uma única operação, de acordo com a quantidade de cocaína, consegue-se somar altíssimas quantias de dinheiro.

"Você dorme pobre e acorda rico", explicou ele. "É muito tentador; o cara vê aquele tanto de dinheiro ele fica enlouquecido e como o que comanda é a ganância, ele sempre vai querer mais e mais dinheiro".

Para traficar e ganhar dinheiro de verdade com o tráfico é preciso ter dinheiro para comprar o produto e é preciso ter inteligência, esperteza e sangue frio para saber planejar e executar a atividade de distribuição. É preciso, também, saber como lavar o dinheiro do tráfico. É preciso, ainda, ter inteligência e "jogo de cintura", mas, em geral, é algo que é feito com uma certa "facilidade". Há esquemas, muito bem articulados, que cuidam de lavar o dinheiro do tráfico por meio de atividades aparentemente legais. Ele diz ter conhecido várias pessoas que, como ele, eram muito bem situadas em termos materiais mas que, devido à ganância pelo dinheiro, de quererem ficar ricas, entraram para o negócio do tráfico.

A respeito de sua ética e moral diante do que faz, disse:

"Eu sei que o que eu faço não é certo, mas eu não sou desonesto. Eu não roubo; não tomo nada de ninguém. O que eu faço é vender um produto que se eu não vender pra quem quer usar, outro vai vender. É um negócio: eu compro o produto, pago por ele e vendo pra quem quer comprar. Eu não chego pra você e te ofereço coca. Eu não roubo ninguém. Não obrigo ninguém a usar o produto. E não é um dinheiro fácil, não. Não é um dinheiro fácil, como se diz por aí. É um dinheiro difícil de ganhar. É difícil porque tem que ter inteligência pra saber trabalhar; tem que ter cabeça, sangue frio, você se desgasta, se preocupa com o negócio, se preocupa com a sua família. Não é um dinheiro fácil, não".

Ele pensa que o que faz não é certo, mas, ao mesmo tempo, que não prejudica ninguém, roubando ou oferecendo cocaína pra quem não usa. Argumentou que o que fazia era vender um produto que não é legalizado pelo governo para quem quer usar. Pensa que a bebida alcoólica e o cigarro, como são drogas legalizadas que pagam impostos para o governo, podem ser utilizadas livremente, mas que são igualmente devastadoras para a saúde de quem abusa de seu uso. Ele diz ter a consciência tão tranqüila de que o que faz não é tão grave, ou assim tão errado. Que pode transportar um caminhão carregado de cocaína, passar pela fiscalização e não tremer, não ficar nervoso, porque está com a consciência tranqüila. Ao passo que se alguém o convidasse para realizar um assalto, um roubo, ele mal conseguiria segurar a arma, que tremeria o tempo todo. Disse, inclusive, ter muita raiva e revolta contra ladrões, assaltantes, segundo ele "um bando de safados. O pior tipo de gente que há", porque tiram das pessoas o que não lhes pertence e em geral fazem isso para sustentar seu vício nas drogas.

Todavia, ao entrar para o negócio do tráfico, algumas regras devem ser adotadas e outras devem ser abandonadas. Por exemplo: a pena ou a piedade de matar "quem merece" deve ser abandonada, se não o traficante não sobrevive na atividade. A este propósito, ele explicou que merece morrer quem não trabalha direito, quem dedura os colegas ou trai para tirar alguma vantagem. Da mesma forma, merece morrer qualquer bandido "safado" que prejudica as pessoas como, por exemplo, os assaltantes, ladrões e estupradores.
Repetiu várias vezes que era honesto; que era um traficante honesto, que cumpria o que combinava com seus fornecedores, parceiros e clientes, assim como sempre foi um homem honesto em tudo que fez na vida. Que sempre honrou sua palavra e seus compromissos. Esta honestidade, como foi dito, e ele enfatizou longamente, foi o que possibilitou que ele conquistasse respeito e um certo sucesso na atividade.

O crime como profissão

O crime como profissão pode ser compreendido como ações ilegais e/ou ilícitas praticadas com a finalidade de obtenção de ganho financeiro, realizadas com uma certa regularidade, em tempo integral ou parcial.

Do ponto de vista histórico, há exemplos de indivíduos que utilizaram o crime como profissão. É o caso do receptador profissional de objetos roubados que atuava no século XVI apresentado por Klockars (apud Norman K. Denzin, 1975) e do grupo de ladrões profissionais do século XIX, descritos por Charles Dickens (1954) em sua obra "Oliver Twist". Na primeira metade do século XX, o tema crime como profissão já era objeto de discussão da sociologia. Um exemplo é o livro de Edwin Sutherland (1937) "The professional thief". Sutherland dedicou-se ao tema e suas pesquisas são consideradas de grande relevância para a compreensão do crime. É ele o autor da expressão "crime de colarinho branco" que se tornou popular e é fruto de suas pesquisas sobre o crime profissional. Para o autor, há que se compreender o crime profissional como um comportamento aprendido em um processo de convivência e comunicação dentro de grupos que possuem uma identidade própria construída em prol de sua atividade.

O ladrão profissional é aquele que rouba profissionalmente e isso significa que: a) ele realiza, como em um negócio, atividades relacionadas ao roubo; b) há um planejamento peculiar e detalhado da atividade de roubar; c) possui técnicas e habilidades que o diferem de outros criminosos, destacando-se a habilidade para manipular as pessoas; d) migra permanentemente, tanto para renovar sua área de ação, quanto para evitar a prisão. Além disso, o ladrão profissional descrito por Sutherland não é considerado um ladrão profissional a não ser que assim seja reconhecido pelo grupo do qual faz parte. Não deve, de forma alguma, delatar seus colegas, é capaz de reconhecer um policial mesmo quando este não está uniformizado, mantém um sólido código de ética que guia suas ações na profissão (1937: 3-10).

Na análise da pesquisa que resultou no livro, Sutherland observa dois pontos: as características da profissão de quem rouba são similares às características de outras profissões legais e estáveis e, por outro lado, há algumas características que são específicas deste grupo, conforme segue abaixo.

A profissão de ladrão como um complexo de técnicas: os ladrões profissionais possuem um complexo de habilidades específicas necessários à profissão, da mesma forma que um médico ou advogado. A diferença é que as habilidades dos ladrões estão voltadas para a prática de roubar e este complexo de técnicas representa uma preparação para todos os problemas provenientes da profissão na vida do ladrão (ibid: 197).

A profissão de ladrão possui também uma rede de status, como qualquer outra profissão. O status de um ladrão é baseado em suas habilidades técnicas, no prestígio financeiro, em suas conexões sociais, que lhe proporcionam poder, na sua forma de se vestir e no amplo conhecimento da profissão adquirido por meio de sua vida migratória. Este status pode ser percebido na atitude de outros criminosos, da polícia, dos oficiais da lei etc. (ibid: 200).

A profissão de ladrão como um consenso: a profissão é composta por um complexo de sentimentos comuns que são partilhados por todos os membros do grupo e que ditam as formas de agir de cada um. Os ladrões são capazes de trabalharem juntos sem muitos desacordos porque possuem atitudes comuns e similares (ibid: 202).

A profissão de ladrão como uma associação diferencial: ela é comum tanto aos ladrões profissionais quanto a outros grupos profissionais. A idéia contida neste termo é a de que o comportamento criminoso, ou seja, o modo de agir específico do criminoso profissional, é aprendido por meio da convivência com outros indivíduos que praticam a mesma atividade. Sendo parte de uma ordem social mais geral, desenvolvem associações baseadas em características que lhe são peculiares (ibid: 206-209).

A profissão de ladrão como uma organização: a profissão pode ser compreendida como crime organizado, apresentando racionalização em sua estruturação. É um sistema composto por uma unidade e organização de suas atividades (ibid: 209).

Outras características destacadas são a seleção e o apadrinhamento promovidos pelo grupo. Um indivíduo só se torna um ladrão profissional se for aceito e selecionado, primeiramente, como aprendiz pelo grupo; depois, deve se submeter a uma espécie de apadrinhamento em que ele irá aprender o ofício com os ladrões experientes como profissionais. Somente quando o grupo considera que ele está pronto em seu treinamento é que passa a ser visto e tratado como um ladrão profissional.

As características demonstram que a profissão de ladrão está organizada em prol do esforço de conseguir obter dinheiro com relativa segurança, tal como em outras profissões legítimas. Segundo Sutherland, dinheiro e segurança são valores inerentes à civilização ocidental e os métodos utilizados para consegui-los estão de acordo com a cultura geral que predomina na sociedade (ibid: 217). O autor afirma que não houve um estudo comparativo por parte do ladrão profissional – que é quem conta sua própria história na primeira parte do livro – para que ele pudesse afirmar que sua atividade é uma profissão. A utilização do termo estava relacionada com o fato de que o grupo ao qual pertencia o utilizava e esta utilização está de acordo com as características que definem as profissões legítimas da sociedade mais geral. O crime profissional não apresenta um aprendizado em escolas, nem há um registro formal dos ensinamentos da profissão, mas o conjunto de conhecimentos que possui tem sido acumulado durante séculos e estes conhecimentos são transmitidos ao aprendiz de forma peculiar, de acordo com a as características específicas da profissão (ibid: 216-217). Para concluir sua análise, o autor destaca cinco pontos. Primeiro: que o estudo demonstra para membros da classe média da sociedade os detalhes de uma profissão com a qual eles têm pouco contato e que provavelmente nunca seria reconhecida como uma profissão. Segundo: que demonstra o caráter grupal que a profissão possui. Se um estudioso do assunto quiser compreendê-lo, deve fazê-lo a partir do grupo e não do indivíduo separadamente. Terceiro, o estudo contribui para a compreensão de nossa própria cultura e a forma como funcionam nossas instituições sociais gerais. Também mostra como se desenvolve e cresce o submundo, contribuindo para a produção de conhecimento da sociologia. Quarto: contribui no sentido de demonstrar como o crime profissional pode ser controlado de forma adequada. Não é somente com sanções punitivas ou reformas no sistema policial, mas modificando a ordem social na qual o crime profissional cresce. Quinto: o estudo poderia contribuir com outras pesquisas sobre o tema. A profissão torna-se viável devido a uma conjugação de fatores de cunho social. Não se trata de algo totalmente estranho à sua constituição (ibid: 229-231).

O estudo de Sutherland demonstra que o crime pode funcionar, de fato, como uma profissão. No caso analisado, o autor apresenta um conjunto de regras, formas de agir, padrões de comportamento e habilidades que distinguem o roubo especializado com as características de uma profissão legítima: possui regras específicas de estruturação e funcionamento e servem ao objetivo de prover o necessário à sobrevivência. O estudo foi produzido no início do século XX e mesmo naquele período havia uma abordagem do crime como profissão, com características que ainda podem ser observadas contemporaneamente, o que contribui para reforçar a pertinência da discussão que está sendo feita no presente trabalho, uma vez que com o desenrolar do referido século a sociedade produziu características que contribuem para reforçar o desenvolvimento de fenômenos como o crime profissional. Contudo, há algumas questões no trabalho de Sutherland que devem ser observadas, e o serão a partir do artigo de Hobbs (1997) "Professional crime: change, continuity and the enduring myth of the underworld".

O objetivo de Hobbs é discutir o conceito de crime profissional e os elementos que caracterizam sua organização específica. O autor argumenta que o termo crime profissional ainda é de difícil definição "por qualquer critério que tenha sua origem na construção legal da ação criminal". Ou seja, sua definição por meio do que é definido legalmente como crime é pouco viável e, apesar de haver uma discussão na sociologia sobre o tema, afirma, as definições que se encontram são pouco consistentes.

Na busca de produzir uma definição do crime profissional satisfatória, Hobbs utiliza dados etnográficos e de entrevistas com criminosos profissionais. Argumenta que há uma extensa discussão acerca do crime profissional, mas que o trabalho de Sutherland se destaca como referência. "For Sutherland, professional crime – pervades as a fragment of criminal activity to be comprehended as a behaviour system (...) that is organised around the shared cultural identity of the thieves" (1997: 57).

Hobbs aponta alguns pontos que considera problemáticos nas explicações de Sutherland sobre o crime profissional. O maior problema, argumenta, é a conotação do termo subcultura, ou submundo, aplicado às redes de criminosos. Esta é, para o autor, uma das questões mais problemáticas na discussão do crime profissional contemporâneo. Há elementos que contrariam a coesão e o sistema de comportamento. O mercado criminal mostra-se instável tal qual o mercado econômico, ou seja, a organização do crime profissional está estruturada com base no modelo do mercado econômico e não em um conjunto de valores mais específicos do campo da profissão criminosa, conforme afirmava Sutherland.

Indeed, the notion of a full time commitment to crime is probably the most useful and historically relevant segment of Sutherland's theory. However, within the contemporary criminals are committed to, and whether this commitment differs sufficiently from that of non-criminals to justify the continue use of the term underworld (Hobbs, 1997: 57).

Suas pesquisas demonstram que o ladrão profissional contemporâneo não ingressa na profissão com base em procedimentos específicos de adesão, treinamento e normas que guiam o agir na profissão. Ele, em geral, se une a indivíduos que tenham em comum o interesse de obter dinheiro com a mesma atividade e quem já está na profissão ensina o necessário para que se possa realizar a atividade que, em comparação com o ladrão pesquisado por Sutherland, é feita com pouco planejamento e atenção aos detalhes, de forma às vezes "quase casual". Esta evidência caracteriza o fato de que semelhante ao que acontece no mercado formal de trabalho, no mercado do crime há profissões não qualificadas que são adotadas pelos indivíduos por falta de opção e/ou oportunidade de obter trabalho melhor.

É recorrente encontrar entre os criminosos profissionais a ausência de sentimentos de comunidade pelo "grupo de trabalho" e o crime seria simplesmente um meio de acumular dinheiro, o que, segundo Hobbs, caracteriza uma atividade altamente instrumental e racionalizada. A perda de importância dos valores de uma comunidade criminosa tradicional aconteceu devido a uma nova ética, que funciona com base em valores empresariais. As habilidades individuais técnicas, sociais, psicológicas só são, portanto, úteis, se forem conjugadas com a capacidade empresarial de comercializar mercadorias. O tráfico de drogas e as atividades a ele relacionadas são o que se destaca dentro desta lógica racional e instrumental que guia o crime profissional contemporâneo.

Os grupos criminosos se organizam menos por ligação de laços comuns. Sua colaboração é, em geral, temporária e selada pelo dinheiro. Esta é uma característica marcante do crime, em especial do que está relacionado ao tráfico de drogas: funciona com a lógica da lucratividade do mercado acima de qualquer valor de ética ou identidade de grupo (Hobbs, 1997: 68-69).

O esvaziamento da legitimidade do mercado de trabalho serviu para redefinir a atividade criminosa à luz de um novo mercado econômico descentralizado e imprevisível:

Contemporary serious crime is located not whit some dark seductive alcove, but within rhetorics that legitimate and enable entrepreneurial activity. (...)Contemporary serious crime group reside in a socio-economic terrain that is largely indistinct from that inhabited by civilians, and differ from the preceding forms of criminality (ibid: 68-69).

Perde relevância a imagem do submundo defendida por Sutherland. Não há uma separação com base em critérios sociais entre indivíduos bons e maus. Os grupos criminosos organizam suas atividades com base em regras e atitudes que norteiam as ações da sociedade mais geral. Partilham os mesmos valores (lucratividade, racionalidade, individualismo) e organizam e constroem suas atividades a partir deles.

O criminoso profissional de Sutherland caracteriza-se por valores mais específicos do grupo que guiam a profissão, ou seja, os valores do "submundo". O criminoso profissional de Hobbs, por sua vez, caracteriza-se mais por valores da sociedade geral (capitalismo, lucro, racionalidade, individualismo).

Se o crime profissional contemporâneo não apresenta os preceitos e a ética característicos de um grupo profissional comum, demonstra, por outro lado, que quem se envolve com a atividade criminosa o faz com um comprometimento que é integral. O crime passa a fazer parte da vida do indivíduo. Se não apresenta mais uma sistematização tão marcante, ainda apresenta características como a de uma profissão legal – conforme é possível notar tanto em Sutherland, quanto em Hobbs. Possui um conhecimento, um saber fazer que lhe é específico, apresenta uma divisão por status (muito comum no crime organizado e no tráfico de drogas) e serve como a fonte geradora dos elementos necessários à sobrevivência.

A apresentação das idéias de ambos os autores tem menos o objetivo de confrontá-las e mais de utilizá-las como suporte para a discussão que está sendo realizada. Na sociedade contemporânea novas modalidades de crimes se originam (como os crimes praticados pela Internet) e outras, já existentes, se refinam com o objetivo de obter retorno material. E este desenvolvimento do crime se dá de acordo com os valores e com a estrutura de relações que predominam socialmente.

A estrutura e organização da sociedade contemporânea são os valores do capitalismo, da obtenção de lucro, do consumo. As relações sociais são permeadas por esses valores. Isto não significa que o ávido desejo pelo lucro seja o único elemento que constitui a dinâmica social. Há outros fatores que se interagem, se relacionam e se combinam para fornecerem a conjuntura que constitui uma realidade social. Mas este aspecto em particular possui grande relevância para a explicação de diversos fenômenos sociais, como a criminalidade urbana. A partir das contribuições de Sutherland (1937), Hobbs (1997) e dos relatos registrados nas entrevistas é possível corroborar esta afirmação. Tanto os autores quanto os entrevistados afirmam que a busca pelo lucro, pelo sucesso material é o principal fator que estimula e mantém a existência do crime profissional que aqui está sendo exemplificado com o tráfico de drogas.

Lúcio enfatizou diversas vezes que o que o estimulou a ingressar no tráfico foi o desejo de ficar rico. Ele afirmou saber que era uma atividade muito lucrativa. Sua história é exemplar e contraria o senso comum que, habitualmente, vê o traficante somente como o pobre da favela. Motivado pelos valores da sociedade de consumo, pela lógica do lucro, do sucesso material ele abandona, segundo ele próprio, uma vida confortável, privilegiada e estável economicamente, para entrar em um negócio que é ilegal e perigoso tanto para si próprio quanto para sua família, mas que possui o mérito de lhe proporcionar o desejado enriquecimento.

Após adotar a carreira criminosa ele afirma que não trabalhou mais em nenhuma outra atividade e que sua vida se constituía dos momentos em que estava viajando para o exterior para adquirir o produto para depois distribuí-lo no Brasil e dos momentos que passava então com a família, desfrutando do dinheiro adquirido com o tráfico. Este fato remete, mais uma vez, a Sutherland (1937), quando explica que uma das características do crime profissional é que o indivíduo passa a viver integralmente voltada para o crime, ou seja, sua vida passa a ser toda estruturada em torno da atividade que desenvolve . Isto está bem exemplificado na história dos dois entrevistados. Embora Lúcio demonstre grande envolvimento com sua família e tenha com ela grande proximidade; mesmo que, de acordo com suas palavras, sua família seja o que sempre teve de mais importante em sua vida, ela não se apresenta como um agente capaz de impedir sua decisão de se envolver com o tráfico. Ele próprio reconhece o risco a que expôs sua família ao se envolver em tal atividade, mas argumenta que, em parte, o fez para proporcionar um maior bem-estar a ela, para lhe proporcionar todos os benefícios que o dinheiro pudesse comprar.

Declarou acreditar e ser temente a Deus. Entretanto, sua fé, ou sua religiosidade, também não funcionou como fator capaz de conter sua decisão e ação de praticar como meio de vida uma atividade considerada criminosa. Seu maior "conselheiro" e "motivador" foi o desejo de obtenção de lucro e de prosperidade material por meio do tráfico e sua justificativa para colocar em prática sua decisão, por um lado, é que por meio do trabalho honesto tradicional ninguém fica rico; vive-se como escravo. Segundo suas palavras, ninguém conseguirá ficar "rico de verdade" por meio do trabalho tradicional.

O contexto político e social na época em que tomou sua decisão são utilizados também, por outro lado, como justificativa para seus atos. Acredita que sua ação seria justificada porque se os políticos, que deviam ser o exemplo maior de virtude para o povo, se envolvem em atividades ilícitas, em decisões vergonhosas – ele chegou a citar o caso de confisco das poupanças realizado durante o governo Collor – em enriquecimento ilícito, por que ele, um indivíduo honesto, não poderia também, por seus meios, tentar enriquecer conforme desejava? Ou seja: é como se o erro dos outros justificasse ou permitisse o seu próprio ou tornasse suas conseqüências menos nocivas. Isto fica aparente tanto quando ele argumenta que se os políticos não dão o exemplo, ele não é tão culpado assim como, também, quando diz ter grande repulsa por bandidos que roubam, assaltam e matam pessoas inocentes. Em sua visão, em seu código de valores e conduta, o bandido que pratica assaltos, que rouba é intelectualmente inferior ; é desprovido de valores como o respeito ao próximo; é, em suas palavras, um sujeito "sem-vergonha". Já sua atividade, argumenta, embora reconheça não ser legal , não é assim tão má, porque ele não rouba de ninguém ao vender a droga. Ele não a oferece a ninguém, tampouco obriga qualquer pessoa a utilizá-la. Em sua visão isto não é ilegal; não há nada de errado, argumentou ele, em vender um produto a uma pessoa que deseja comprá-lo. Segundo ele, o álcool e o cigarro são igualmente danosos para a saúde, tal como as drogas, mas pelo fato de pagarem imposto para o governo são vendidos livremente.

Estas informações demonstram o argumento de Elias (1994) de que com o avanço do processo civilizador os indivíduos se distanciaram dos valores que regiam suas vidas e que eram advindos de instituições como a família e a religião. Torna-se comum um indivíduo muito voltado para si mesmo, para seus próprios valores e pontos de vista como se pertencessem somente a ele e muito distante dos laços que o ligam ao tecido social. Somente sua ética individual parece lhe servir para orientar seus sentimentos e suas ações.

Jean também justificou sua entrada para o tráfico pela vontade de realizar suas aspirações de prosperidade material. Seus desejos de possuir os mesmos objetos que outros jovens tinham e que ele não tinha condições de ter, o desejo de ser bem-sucedido em conquistar as mulheres, conjugado à impossibilidade de realizá-lo mediante o trabalho tradicional e vendo a possibilidade de realização com a atividade no tráfico criaram o cenário no qual o crime foi adotado como profissão.

Um trabalhador comum, pensa, não possui as condições para proporcionar vantagens materiais às mulheres que deseja, não pode ter acesso a todos os bens de consumo que quer, não tema valorização em seu meio que um traficante tem. Um traficante, argumentou Jean, como ele, por exemplo, que possuía o conhecimento de como manusear e transformar a droga e que também demonstram bravura e destemor, tanto em relação à polícia, quanto em punir os colegas que "mereciam, conquistam o respeito de seus colegas de atividade e conquistam também o respeito dos moradores das regiões em que residem porque ali todos sabem que se "se meter com ele vai dar problema". Como traficante, ele se sente mais valorizado, mais poderoso e mais importante do que o que sentiria se fosse apenas um trabalhador comum.

Por outro lado, os entrevistados apresentaram desejo de demonstrar que não são pessoas "assim tão más". Lúcio repetiu diversas vezes que era uma boa pessoa, que se sensibilizava a ponto de chegar às lágrimas com os problemas de seus semelhantes, repetiu várias vezes: "a gente tem sentimentos, tem sensibilidade, viu menina? A gente não é nem um monstro, uma criatura sem sentimentos, não".

A história de vida de Jean está permeada pelo crime desde sua infância. A partir de então esteve envolvido em atividades criminosas que desempenhavam o papel de lhe proporcionar os meios de sobrevivência e satisfação dos seus desejos. Assim, mais uma vez pode-se recorrer a Sutherland (1937) e suas afirmações de que o crime passa a fazer parte integral da vida dos indivíduos que o praticam como profissão. O envolvimento tão prematuro com o crime é o que pode explicar, também, o fato de indivíduos tão jovens, na faixa dos 25 e 26 anos já terem passado tantos anos na prisão e já estarem tão formados, tão experientes no crime, já que a prisão é a "faculdade do crime", segundo Jean.

As histórias dos dois entrevistados apresentam diversos elementos que caracterizam o crime profissional. Primeiro: elas se constituem a partir dos já discutidos valores da sociedade capitalista: racionalidade do mercado conjugada com o desejo de consumo. Segundo: cada história apresenta evidências das características do crime profissional apresentadas e discutidas por Sutherland (1937) e Hobbs (1997). Os dois entrevistados afirmaram que adotaram o crime como meio de vida e a ele se dedicavam de forma integral.

Lúcio relatou que viajava constantemente para o exterior para adquirir a matéria-prima da cocaína e viajava por todo o Brasil para fazer a distribuição da droga para seus compradores. Jean também relatou que viajava para diversos países para adquirir a matéria-prima para produzir a droga, ou a droga pronta para consumo, e chegava a passar temporadas em diferentes cidades de diferentes estados do Brasil, devido à sua atuação no crime. Estes fatos confirmam as afirmações de Sutherland (1937), que demonstrou que uma das características que os criminosos profissionais apresentam é a de uma vida migratória. Estão constantemente mudando de local de residência para que sejam alvos menos passíveis de chamar a atenção da polícia e, com esta "vida migratória" (Sutherland, 1937:3), tornam-se mais experiente na atividade que desenvolvem. As histórias de Lúcio e Jean demonstram esta característica .

Os entrevistados afirmaram que entraram na atividade do tráfico por meio de outras pessoas que já estavam envolvidas. Jean formou-se no crime por meio dos grupos com os quais se envolveu e foi com estes grupos que chegou a se especializar em uma atividade no tráfico, que é a que ele chama de "químico". Lúcio, apesar de ter viajado sozinho para o exterior para fazer o contato com os fornecedores da matéria-prima da droga, somente o fez a partir das informações necessárias que recebeu de um traficante veterano e foi com seus contatos no exterior que ele aprendeu a manipular a matéria-prima e transformá-la conforme sua necessidade de comercialização. A partir de seu agir honesto, conquistou a confiança dos traficantes estrangeiros a ponto de se integrar a seus negócios, trabalhar com eles e conseguir bons lucros. A este respeito, Lúcio relatou que tal confiança foi conquistada porque os traficantes estrangeiros ficaram durante um bom tempo monitorando seus passos. Não se pode correr o risco de confiar em uma pessoa que não esteja à altura da tarefa e que possa provocar prejuízos aos negócios. Como ele próprio argumentou: "eu posso te dar um quilo de coca agora pra você vender, você pode fazer cinqüenta mil reais com ela, mas como você vai conseguir? Você vai bater de porta em porta oferecendo? Vai oferecer pra qualquer um? Não pode. Você tem que ter as pessoas certas pra quem vender, se não você não consegue nada".

Há outros exemplos de saberes específicos da profissão, como a forma embalar e de estocar a droga até o momento de passá-la adiante, o grau de umidade atmosférica ao manusear o produto para que ele apresente a qualidade desejada, o que dizer e o que não dizer (e como dizer o que deve ser dito) mesmo para os parceiros de atividade a fim de não correr o risco de ser roubado ou morto por um colega ganancioso. Não fazer uso da droga é outro requisito fundamental para quem quer ser bem-sucedido nas atividades que deve desempenhar e para obter uma boa lucratividade.

Se as profissões tradicionais e legais possuem escolas que ensinam a profissão, também o crime profissional possui sua "faculdade, universidade do crime". O ladrão profissional (Sutherland, 1937) aprendia a atividade por meio de um período passado com um grupo comum que se ocuparia em lhe ensinar tudo que fosse necessário para que ele pudesse desempenhar a atividade. O criminoso profissional contemporâneo não dispõe de um aprendizado no interior de um grupo que partilha ideal e interesses comunitários. Sua formação é feita a partir de seus próprios esforços em se integrar com quem possa lhe fornecer as informações e o auxílio necessário para aprender como agir na profissão; mas, na prisão, de acordo com os entrevistados, encontram-se criminosos experientes que partilham entre si seus conhecimentos e, assim, todos ampliam seus saberes na profissão específica e, também, aprendem como proceder em outras atividades, conforme mencionou Jean, ao afirmar que lá estava aprendendo a fazer clonagem de carros. "Aqui é o lugar; aqui é o lugar onde o trouxa entra trouxa e sai profissional", afirmou ele.

De acordo com Hobbs (1997), para ser bem-sucedido como criminoso profissional, contemporaneamente, o indivíduo depende muito mais de seus talentos e habilidades individuais do que do partilhar dos valores de um grupo específico. Ou seja: depende mais de sua internalização dos valores que regem a sociedade em geral. É o que confirma a estratégia de Jean de infiltrar em diversas faculdades supostos alunos (que, na verdade, eram traficantes a seu serviço), para potencializar suas chances de lucro, alcançando uma clientela muito lucrativa e de forma menos exposta à ação da polícia.

Os relatos dos entrevistados demonstram que o crime "profissional" que se desenvolve no tráfico de drogas possui valores e normas de funcionamento que lhe são próprias e comuns a todos que se envolvem na atividade. Mas, ao mesmo tempo, apresentam valores que são próprios de cada indivíduo. Todos afirmaram que o traficante que compra a droga para revender e não paga, ou que delata seus companheiros é, em geral, punido com a morte, pois além de serem esses comportamentos, segundo suas visões, uma falha de caráter, prejudicam o bom funcionamento do negócio.

Lúcio vai mais além nos atributos que ele considera apropriados como valores orientadores do comportamento do profissional do crime. Em suas palavras, é necessário agir sempre com absoluta honestidade no que se está envolvido. Ele diz sempre ter sido honesto em tudo que fez na vida, inclusive no tráfico. Esta honestidade significa cumprir os acordos feitos, tanto com fornecedores, quanto com clientes. Significa não agir de forma desonesta com os companheiros, como fazem alguns indivíduos que traem os parceiros para levar algum tipo de vantagem – conforme aconteceu com ele próprio – e significa não prejudicar as outras pessoas. A forma e o conteúdo que caracterizam o crime contemporâneo não se encontram, portanto, restritos a um universo do submundo defendido por Sutherland (1937) e criticado por Hobbs (1997), que afirma que os valores e a moral que orientam a prática dos criminosos profissionais são as mesmas que estão presentes na sociedade legal, ou honrada. Racionalidade, avidez de consumo, intensificação da individualização, da mesma forma que estão presentes na sociedade de uma forma geral, estão presentes no crime.

Considerações finais

Falar de um fenômeno como o crime como uma profissão pode, erroneamente, conferir ao mesmo uma noção de legitimidade. A noção que a palavra profissão apresenta, de algo bom e justo, pode ser motivo de confusão no entendimento deste tipo de crime. Contudo, deve ficar claro que o que se buscou com este trabalho foi demonstrar um caráter marcante do crime contemporâneo, que é o de se desenvolver e funcionar equiparando-se à racionalidade do mercado, dos valores capitalistas de obtenção de lucro. A mistura do legal e do ilegal (Santos, 2004) e as proporções imensas do crime organizado globalizado (Robinson, 2001) são exemplos de que os fios que compõem o tecido social encontram-se cada vez mais permeados por atividades que envolvem o crime. Atividades as mais diversas (ilegais, criminosas) são adotadas por indivíduos em todas as classes da sociedade. Não importa se a atividade é legal ou ilegal. O que importa é o potencial lucrativo que aquela atividade teme a capacidade de manter o potencial de consumo e todos os valores que ele representa.

Quais são os elementos capazes de explicar por que se forma e se desenvolve uma prática como o crime como profissão? Explicar essa questão somente - ou predominantemente - pelo aspecto econômico é reduzi-la a um determinismo econômico. Campbell (2001), Bauman (2001) e Featherstone discutem a questão do consumo na sociedade contemporânea. Fatores combinados como o processo de individualização, de esvaziamento da identidade, o esvaziamento do significado das relações de trabalho como promotoras de solidariedade e similaridade, submetido à lógica da ideologia dominante que estimula e presa o consumo, resulta em uma configuração social em que as relações sociais de diversos tipos estão sob o imperativo do padrão de consumo que se estabelece. As relações no meio profissional, as relações de amizade e afetividade, o lugar em que se vive, os hábitos de lazer, os bens que se possui são compreendidos como indicativos da identidade de cada um e - mais do que isso - estabelecem seu lugar na hierarquia das relações sociais. Maior ou menor prestígio e honra social serão conferidos de acordo com o estilo de vida e o modo de ser construídos em torno do padrão e modo de consumo. São notáveis a busca e o desejo permanentes dos indivíduos de serem aceitos, respeitados, amados, queridos por seus semelhantes nos grupos pelos quais transitam na sociedade a que pertencem. É esta conjugação de fatores o que configura o ambiente em que cada um, em geral, se esforça como pode para sentir-se parte dessa sociedade, para ser reconhecido como seu integrante. É a racionalidade voltada para finalidades específicas que se faz notar: se o sujeito conquistará seu lugar na hierarquia social estabelecendo um certo estilo de vida, sendo jogador de futebol, artista, médico, advogado ou traficante é, por vezes, o fator menos relevante desde que o objetivo último seja alcançado.

De acordo com Campbell (2001), é possível dizer que a sociedade se organiza em torno do consumo como forma de sanar a insaciabilidade permanente na busca pelo prazer proporcionado pelo mesmo. Bauman (2001), contudo, vai mais além e afirma que a busca frenética pelo consumo é – além de busca de satisfação das necessidades, dos desejos, do querer do consumidor – também um meio de fuga da amarga e permanente sensação de incerteza e insegurança que permeiam a vida de todos os indivíduos que vivem neste ambiente de modernidade líquida. Esta sensação de insegurança e incerteza - argumenta o autor - é o resultado tanto da ressignificação de valores na sociedade quanto da busca por uma identidade. A passagem de um capitalismo pesado (nos moldes fordistas) para um capitalismo leve (nos moldes da flexibilidade) deixou um vácuo no espaço formado pelas identidades no ambiente do capitalismo leve, líquido. O preenchimento desse vácuo de identidade é buscado por meio do consumo. O acesso à infinidade de produtos e a possibilidade de consumi-los está associado a uma sensação de liberdade, de poder, por seus próprios meios, escolher e adquirir, por meio dos objetos, o modelo de identidade que mais se considera adequado e libertador. É por meio do consumo que se viabiliza a possibilidade de tornar mais sólida a identidade líquida e assim diminuir a sensação de incerteza e insegurança.

Este consumir apresenta, ainda, a característica de ser permanentemente necessário. É por meio do consumo que se constroem as relações amorosas, as relações profissionais, as relações de amizade, a própria relação do indivíduo consigo. Por meio do padrão de consumo que se estabelece é que se constrói a identidade de cada um. Diante disso, o fim a ser alcançado com determinado consumo não é o elemento mais importante e, sim, o ato próprio de consumo, liberdade e significação em termos de identidade que ele representa. Os pobres - ensina o autor -, sem poderem escolher o contrário, dividem o espaço construído pela sociedade de consumo com os ricos e, por meio da TV, constroem a ilusão de que também têm ao seu alcance a infinidade de escolhas e possibilidades de consumo que os ricos têm e, assim, também o acesso ao alívio da sensação de incerteza e insegurança provenientes da busca por um identidade mais sólida.
Na luta por ter condições de consumir qualquer coisa objeto do desejo e do querer, os indivíduos não medem esforços para ter acesso aos meios que promoverão tal consumo. Este é um dos motivos de porque o crime como profissão torna-se uma opção e uma possibilidade tão atraente.

Conforme já foi afirmado, uma forte ressignificação de valores tradicionais como religião, família, instituições sociais e políticas, fornece um vácuo que é ocupado por novos valores gerados pela lógica do de consumo e que aumentam a possibilidade - e probabilidade - de que surjam e se concretizem atividades ilegais que visam a lucratividade necessária para realizar os ideais de consumo da sociedade contemporânea. O crime passa a funcionar como a profissão de quem o pratica. Deixa de ser, caracteristicamente, um evento momentâneo, fruto de paixões, ou de pouco desenvolvimento e/ou internalização do processo civilizador (Elias, 1994b), passando a funcionar com uma regularidade e racionalidade que podem chegar a ser até previsíveis.

Os recursos explicativos utilizados pelos entrevistados para justificar suas atitudes e o desejo de realização por meio do consumo confirmam as afirmações de Hobbs de que, contemporaneamente, é pouco viável falar em valores de um "mundo do crime" separado do "mundo honrado". Em geral, os valores que guiam todos os indivíduos – os que praticam e os que não praticam crimes – são os valores da sociedade capitalista. Os desejos comuns a esta sociedade são partilhados por todos; o que varia é a forma como os indivíduos buscam sua realização. Estes elementos estão exemplificados na fala de Jean ao atribuir sua atuação no tráfico tanto ao fraco apoio familiar quanto a uma entidade do mundo espiritual e, também, na sua afirmação de querer pagar sua dívida e reconstruir sua vida em outros moldes. Também estão presentes na fala de Lúcio, quando enfatiza que não é uma pessoa maligna e desprovida de bons sentimentos e que é uma pessoa que sempre agiu na vida com absoluta honestidade.

A origem de Jean confirma uma visão comum de que em geral quem mais se envolve com crimes, com o tráfico de drogas são os pobres. Fato que a história de Lúcio contradiz. Além de ele próprio constituir parcela das classes mais altas da sociedade, afirmou que é comum pessoas de elevada posição social e econômica envolverem-se com o tráfico. A questão é que essas pessoas, em geral, estão muito bem protegidas e escondidas, menos propensas a serem descobertas e isto se deve tanto ao código de silêncio que impera no tráfico, quanto pela elevada posição social dessas pessoas as tornar menos passíveis de serem investigadas como potenciais criminosas. Além disso, possuem, ainda, acesso à defesa por bons advogados em caso de serem descobertos e o poder de suborno de quem poderia puni-los, em muitos casos.

Os casos apresentados pela mídia de pessoas de classes altas da sociedade envolvidas com o trafico de drogas são exemplos que o crime profissional não é exclusividade de quem é economicamente carente. A face do crime contemporâneo não é composta somente pelas feições de pobres ou de ricos. Democrática, a face do crime contemporâneo é composta pelos elementos que constituem a sociedade em sua totalidade e possui representantes de todas as esferas sociais.

O desejo de incluir-se na sociedade de consumo e de permanecer ali - muitas vezes não importando a que preço - atinge a todos os indivíduos de todas as classes sociais. O crime como profissão pode ser, como no tráfico de drogas, muito lucrativo e tornar-se uma opção tanto para ricos quanto para pobres. E esta pode ser uma feição marcante do crime contemporâneo, conforme se viu neste trabalho. A partir dos exemplos apontados, pretendeu-se demonstrar que o crime não se apresenta como fenômeno totalmente distante e estranho à constituição social, mas faz parte das mesmas bases sobre a qual se ergue o monumento que é a sociedade.

Texto desenvolvido a partir da dissertação de Mestrado de mesmo título defendida em junho de 2006 no curso de Pós-Graduação do Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal de Goiás.

Notas

As análises apresentadas referem-se a duas destas entrevistas. A decisão de omitir uma delas é um recurso que foi considerado adequado à exposição das informações de forma mais objetiva e compreensível ao leitor(a) e não interfere nas discussões e conclusões apresentadas.
Expressões utilizadas pelos traficantes para designar aqueles indivíduos que possuem o conhecimento de como manusear a cocaína de forma a aumentar sua quantidade ou para transformá-la em outros produtos.
Aquele que vai buscar a droga para o usuário; também chamado de vapor.[N. E.].
Esta preparação consiste em utilizar uma certa quantia da cocaína pura misturando-a com outras substâncias tanto para aumentar a quantidade da cocaína que será vendida para os usuários, o que permite uma maior lucratividade, quanto para transformá-la em outros produtos, como o crack ou a merla.
Este entrevistado demonstrou grande repulsa por este tipo de criminoso que se torna viciado e também por aqueles que roubam por considerar que eles constituem o pior tipo de gente que há. Afirmou que são a "ralé" da sociedade. Considera indigno o indivíduo que trafica para sustentar o vício, porque ele não é um bom traficante, uma vez que os efeitos da droga influenciam negativamente em seu desempenho. Considera desprezível o criminoso que rouba e às vezes mata na execução dessas atividades porque elas são, de acordo com sua visão, desonestas não têm escrúpulos com os bens materiais e com as vidas de suas vítimas.
Guardadas as devidas ressalvas de que o ladrão profissional do período pesquisado por Sutherland e os reeducandos por tráfico de drogas possuem especificidades que são próprias à sua época e à atividade que desempenham.

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ZALUAR, Alba. Teleguiados e chefes: juventude e crime. In: Condomínio do diabo. Rio de Janeiro:Revan e UFRJ, 1994.

encaminhando mais coisa

Infelismente a mídia perplexa à trabalho da elite brasileira o que poderiamos esperar mais destes veículos de informação? Como vimos em outros e-mails todos questionaram a mídia sendo que a própria teve e tem papel importantissimo para a colheita da desigualdade social neste país. Grandes ações foram revertidas e concluídas através da influência da mídia. Pobreza choca e vende jornal! Ainda mais quando é o extrema pobreza, elite adora ver o resultado da sua própria exploração!!! Em relação ao ato, com certeza o sentimento de todos era realmente que poderia ser melhor, mas mediante o fato de agirmos dentro da problemática que ja se alastrava no município a ação teve de ser imediata e segundo os números e a cobertura (positiva ou negativa) da mídia até que fomos muito bem, poderiamos fazer algo melhor? Com certeza. Mas as armas foram estas e quem sabe agora melhor estruturado conseguimos dar passos novos em relação a caminhada. A satisfação maior é na verdade não é fazer um ato melhor né, é resolver o problema!.

respostas

Sei que é difícil tirar algum sentido da ... que vivemos mas acho que - com os devidos poréns - o artigo (pelo enfoque e a bibliografia) dá um embasamento maior para entender melhor o que são os significantes neste mundo de trabalho precarizado (mundo e trabalho, rss), individualizado ao extremo, hegemonizado pela ideologia consumista nesta fase do capitalismo financeiro, mostrando justamente que basicamente não há ética diferente entre um criminoso ou qualquer outro sujeito da classe média que precisa ganhar seu pão e tudo mais. Acho importante qualquer contribuição que possa esclarecer esses processos, ainda mais porque estão batendo nas nossas portas - pelo menos, como já disse, vejo muito paralelo entre a descrição de um criminoso e tudo que temos em nossa volta em termos de corretores, incorporadores, e assim por diante...

posicao em lista

O artigo é interesse, embora não aborde nada novo. Vários filmes ultimamente têm denunciado a questão do envolvimento da classe média com o tráfico ou o uso da droga que alimenta este tráfico. Entre eles "Tropa de Elite", "Meu nome não é Jonny".
Eu gostaria muito de ler algum estudo que abordasse a hipocrisia da classe média que acredita que vender ou usar um "baseado" ou cheirar uma "carreirinha" não tem nada a ver com o crime organizado e a violência.

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