Folha - Anos rebeldes

Olha que bonitinho, a folha fez um raio-x das ocupações de reitorias....
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Anos rebeldes Conheça os estudantes que invadiram as reitorias da USP, da UnB e da PUC-SP e descubra o que rolou durante as várias semanas de ocupações

Alan Marques/Folha Imagem

Estudantes da Universidade de Brasília comemoram a renúncia do reitor

LETICIA DE CASTRO
DA REPORTAGEM LOCAL

Há pouco mais de um ano, estudantes de todo o país começaram a tomar reitorias de universidades como forma de pressionar as instituições e governos a atender às suas reivindicações. O último e mais emblemático caso, concluído há dez dias, foi o da Universidade de Brasília (UnB), em que alunos acamparam por duas semanas na reitoria pedindo a renúncia do reitor Timothy Mullholand, envolvido em um escândalo de desvio de verba pública para a reforma de seu apartamento funcional. Uma semana depois, ele renunciou.
A ocupação reuniu alunos engajados, militantes do movimento estudantil e também alguns "turistas", que aderiram após a grande repercussão do caso na mídia. "Quando o escândalo estourou, a participação nas assembléias triplicou", conta Karla Gamba, 21, coordenadora geral do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e militante do movimento estudantil desde o início da faculdade.
Grávida de seis meses, Karla não pôde dormir com os colegas na universidade, mas fazia questão de chegar cedinho diariamente para as discussões.
Ela está no oitavo semestre do curso de artes cênicas. Enquanto boa parte dos jovens que querem uma carreira artística sonham com um papel em uma novela e com flashes de paparazzi, Karla, "mais do que ganhar dinheiro", pretende participar de algum "projeto que traga reflexão."
"Quero um trabalho que me permita contribuir para a transformação da sociedade. Os trabalhos da televisão hoje me parecem só retratar o que acontece, sem sugerir que pode ser diferente", teoriza Karla.
As opções mais atraentes para ela são continuar na universidade, como professora, ou trabalhar em alguma ONG ou movimento social.
Esse também é o caminho que pretende trilhar Fábio Felix, 22, que está no oitavo semestre do curso de serviço social e é colega de Karla na coordenação do DCE.
Um dos principais articuladores da ocupação da UnB, Felix participou ativamente das negociações com a reitoria.
"O pior momento foi quando eu passei o dia inteiro em negociação com a alta cúpula da universidade e do governo. Foram seis horas de reunião. Quando cheguei à UnB, tive ainda uma reunião com o ex-vice reitor, e as negociações estavam até avançando quando tivemos a notícia de que um garoto tinha caído de uma rampa na reitoria", explica. "Era o sétimo dia de ocupação, estava tudo muito tenso, havia pressão da Polícia Federal. Naquele momento, eu tive uma crise de choro. Saí da reunião e, no caminho para a reitoria, comecei a chorar, desesperado, preocupado com o que pudesse ter acontecido."
Segundo ele, foi apenas um susto. O estudante foi encaminhado ao hospital e ficou bem, mas o episódio foi marcante.

Confraternizações
Para conseguir lidar com o estresse das noites mal dormidas, das discussões acaloradas em assembléias e da pressão das negociações, a saída foi improvisar atividades "lúdicas".
Portanto, entre um debate sobre o Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais do MEC) e uma assembléia sobre a paridade nos conselhos universitário, foram organizadas também algumas "confraternizações".
Oficinas de ioga e de massagem, campeonatos de dominó, exibição de filmes politizados e festas com música, dança, paquera, mas sem bebida alcoólica, ajudaram os estudantes a relaxar. "A gente precisava se distrair um pouco. Senão não conseguiria agüentar os 16 dias", desabafa Felix.
Nas festinhas, a discotecagem era eclética. Tinha espaço para forró, rock e até para música eletrônica, além de um bom sambinha tocado ao vivo.
Raoni Japiassu, 23, aluno do 11º semestre de biologia, se encarregou de acordar o pessoal diariamente às 7h. Para isso, empunhava seu violão e cantarolava músicas de Gilberto Gil, do Rappa ou de Alceu Valença. "Era um jeito de manter o clima de companheirismo, sempre alegre", diz o estudante.
Outra diversão era exercitar a criatividade criando paródias de músicas famosas (veja quadro ao lado), com letras sobre a universidade e a ocupação.
No ano passado, durante a ocupação da USP -que durou 51 dias-, essa estratégia também foi adotada e teve a adesão de artistas conhecidos, como Tom Zé e o grupo Teatro Mágico, que se apresentaram para os estudantes acampados.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2804200808.htm

Invasores podem ser punidos

DA REPORTAGEM LOCAL
Apesar de ter resultado na aceitação de várias das reivindicações, o movimento de invasão de reitorias também poderá ter conseqüências negativas para alguns participantes. Na PUC de São Paulo, por exemplo, nove alunos estão passando por um processo de sindicância que pretende apurar os responsáveis pela invasão da reitoria em novembro passado.
Eles já foram ouvidos individualmente por uma comissão apuratória da instituição que pode decidir por uma advertência, suspensão ou até pela expulsão de eventuais culpados.
André, 22, (nome fictício) é um desses alunos. Além desse processo interno, ele conta que há um processo criminal na Justiça, que ainda não entrou na fase de inquéritos, contra os mesmos estudantes.
Mesmo assim, ele acha que o saldo foi positivo. "Gerou muita mobilização e debate. As pessoas tinham que se posicionar, e isso é saudável", diz o estudante, que é veterano das invasões, pois, além da PUC, participou também da ocupação da USP, onde também estuda. "Recebi uma mensagem de um amigo pelo celular dizendo que a reitoria da USP tinha sido ocupada. Corri para lá e fiquei uns 20 dias acampado".
André não é ligado a nenhum partido político, mas não tem restrições à participação de estudantes que são filiados. "É uma relação meio turbulenta mas necessária", comenta.
Ciro Matsui Jr., 23, da medicina da USP, participou da ocupação e é filiado ao PSOL. Para ele, houve uma certa rejeição aos partidos políticos durante a invasão da reitoria. "Tinha muito preconceito", diz. (LC)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2804200809.htm

Como funciona a ocupação

- A ocupação é um instrumento extremo, radical, usado em último caso, quando não há qualquer interlocução e a situação é grave

- Os estudantes se dividem em comissões que ficam responsáveis por organizar o cotidiano da ocupação. Há, por exemplo, comissões de segurança (para garantir a integridade do patrimônio da universidade e a dos participantes), de alimentação, de negociação e até de comunicação -que se encarrega de passar informações ao restante da comunidade acadêmica e à imprensa

- As decisões são tomadas em assembléias abertas à participação de todos os estudantes; as comissões se submetem a essas decisões

- Blogs facilitam a divulgação das reivindicações e do funcionamento da ocupação

- Para quebrar a tensão das discussões e relaxar os participantes, são organizadas festinhas, geralmente com proibição ao uso de bebidas alcoólicas e drogas, jogos, exibição de filmes e até aulas de massagem e ioga

- Quanto maior adesão de estudantes, mais bem-sucedida será a experiência

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2804200810.htm

CRONOLOGIA DAS INVASÕES

2007

Março
28 - Cerca de 200 estudantes invadem a reitoria da Unicamp reivindicando melhorias na moradia estudantil. Ocupação dura quatro dias, e a universidade se compromete a atender reivindicações

Maio

3 - Reitoria da USP é invadida em protesto contra decreto do governo estadual que, na avaliação de estudantes e professores, fere a autonomia da universidade

16 - Justiça determina a reintegração de posse da reitoria da USP

31 - Serra publica decreto declaratório que esclarece que as universidades podem remanejar recursos orçamentários, entre outros pontos

Junho

15 - Estudantes de federais do Rio, Bahia, Espírito Santo e Pará invadem reitorias reivindicando recursos para assistência estudantil e educação, entre outros pontos

18 - Após tentativa de invadir novamente a reitoria da Unicamp, cerca de cem estudantes invadem a diretoria acadêmica

20 - Justiça concede reintegração de posse à Unicamp

22 - Invasores deixam a reitoria da USP

28 - Estudantes deixam a diretoria acadêmica da Unicamp

Agosto

20 - 200 estudantes invadem prédios da UFRJ contra o Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais)

22 - Em Fortaleza e em Florianópolis alunos invadem as reitorias das universidades estadual e federal respectivamente; em São Paulo, Tropa de Choque da PM expulsa estudantes e militantes oito horas após invasão.

Novembro

5 - Cerca de 150 estudantes ocupam a reitoria da PUC em protesto contra reestruturação administrativa

10 - Após a chegada da Tropa de Choque da PM ao prédio, alunos deixam a reitoria

2008

Abril

3 - Estudantes invadem a reitoria da UnB pedindo o afastamento do reitor Timothy Mullholand, que teve seu apartamento funcional mobiliado com itens de luxo comprados com dinheiro de uma fundação de apoio a pesquisa.

10 - Reitor se licencia do cargo

14 - Timothy Mullholand renuncia ao cargo de reitor, e toda a cúpula da universidade cai

18 - Estudantes deixam a reitoria

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2804200811.htm

educação

A retomada do movimento estudantil

Acadêmicos comentam as recentes ocupações de universidades brasileiras e dizem por que são contra a ação da polícia

DA REPORTAGEM LOCAL
Para a socióloga e professora titular aposentada da Unicamp Maria da Glória Gohn, as ocupações de reitorias marcam um novo momento no movimento estudantil contemporâneo.
"Eles deixaram de se interessar apenas por questões pontuais, como a carteirinha e o bandeijão, para se mobilizar em torno de questões gerais, como a questão da ética. Isso foi possível apenas em momentos específicos da conjuntura nacional, como as Diretas Já e o Fora Collor. Agora, o interessante é que eles saíram sozinhos, sem participação de outros segmentos sociais", diz.
Para ela, apesar de haver a influência de partidos políticos, as ocupações se caracterizaram principalmente pela "multiplicidade de orientações ideológicas, partidárias e políticas".
Ela observa também que as reivindicações são bastante particulares, ligadas à realidade de cada universidade. "Onde foi possível articular ações com mais unidade, eles alcançaram êxito. Quando houve fragmentação também nas questões internas, o movimento foi malsucedido", observa.
Já para o professor do departamento de política da PUC Lucio Flavio de Almeida, esse tipo de ação acontece ciclicamente desde o principal marco do movimento estudantil, ocorrido há 40 anos, em Paris, o famoso maio de 68. "Os motivos nem sempre são os mesmo, mas há sempre alguma luta por maior liberdade."
Por isso, diz ele, não há motivos para se escandalizar nem para apelar para procedimentos repressivos. "Independentemente da legitimidade de cada ocupação, nada justifica acionar a polícia. O movimento estudantil não deve ser tratado como caso de polícia, e sim como caso de política. A universidade tem meios de resolver seus problemas sem apelar para a força policial", conclui.
(LETICIA DE CASTRO)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2804200812.htm

As principais reivindicações dos estudantes

Universidade de Brasília
Estudantes pediam a renúncia do reitor Timothy Mullholand, cujo apartamento funcional foi reformado e mobiliado com recursos da Finatec (Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), órgão responsável pelo financiamento de pesquisas científicas. Outras reivindicações eram que alunos e funcionários tivessem a mesma participação que professores nos conselhos superiores da universidade -que decidem assuntos administrativos e acadêmicos- e um debate sobre o papel das fundações privadas ligadas à universidade

Universidade de São Paulo
Invasão foi motivada por decretos do governador José Serra que, na interpretação dos estudantes, feriam a autonomia das universidades públicas. Pouco menos de um mês após a ocupação, o governo publica decreto declaratório assegurando a autonomia. Entre as outras reivindicações dos alunos estavam também a liberação de verbas para a educação, aprovadas pela Assembléia e vetadas pelo governo na época, direito a voto para estudantes, funcionários e professores no conselho universitário, num total de 17 pontos

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Estudantes protestavam contra o processo de reestruturação administrativa da faculdade, que, segundo eles, não havia sido discutido com os alunos e traria novas demissões para a instituição. A votação que seria realizada em dezembro de 2007 foi adiada para março deste ano e aprovou a proposta. Os alunos entraram com mandado de segurança para impedir a implementação

Demais universidades federais
Invasões de reitorias e outras manifestações nas universidades da Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, entre outras, no ano passado, eram uma reação contra o Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), instituído por decreto federal com o objetivo de ampliar vagas nas universidades. Para os estudantes, o investimento do governo nas universidades é desproporcional ao crescimento pretendido

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2804200807.htm

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