(da caros amigos)
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Comunicado aos bem-educados: em breve professor exercerá atividade marginal
por John Richardson
Senhor governador José Serra, não se assuste se nos próximos dias, na
capital paulista, eu me aproximar do seu carro oficial blindado, enquanto
o senhor espera o semáforo abrir, e te incomode ao pedir sua atenção com
malabarismos ou limpar o vidro ou lhe oferecer balas em troca de um
trocado. Explico: sou ex-professor da rede pública do ensino de São Paulo
e estou desempregado. Sim, tenho diploma, mas mesmo assim... me desculpe,
o senhor não tem nada a ver com isso, não é? Acabei – sem querer –
desviando do assunto, afinal só quero ajudá-lo a se prevenir contra o que
lhe possa acontecer nos próximos dias, já que não posso garantir nem
confiar no meu estado de sanidade mental.
Continuo. Senhor governador, não se assuste se nos próximos dias eu, de
repente, possa surpreender alguém da sua família durante um passeio
matinal no parque próximo a sua casa e lhe roubar o relógio, o tênis, o
celular, a carteira. Espero que me entenda, é que vou continuar
desempregado mesmo!
Governador, não se assuste se nos próximos dias eu invadir a casa de algum
parente seu e roubar alguns objetos para trocar por alimentos. Espero que
o senhor me compreenda, é que ainda vou estar desempregado. Sabe como é,
né?
Senhor Serra, não se assuste se nos próximos dias eu, de repente,
sequestrar seu filho a fim de conseguir uma grana para dar de comer e de
vestir aos meus filhos e a minha companheira. Mas não se preocupe, seu
filho não nos interessa, o importante é a grana. Veja bem, não se trata de
uma ameaça, ou de uma bricadeira de mau-gosto, é apenas uma consequência
da realidade. Afinal é bem provável que continuarei desempregado, então "é
melhor me prevenir do que me remediar", certo?
Serra, não se assuste se nos próximos dias, ao passar de carro por uma das
ruas do Brás, eu esteja num ponto a me prostituir. Vossa excelência deve
saber que uma simples noitada me equivaleria a um mês inteiro pago pelo
trabalho que desenvolvia para a educação do nosso Estado quando eu
trabalhava.
Governador José Serra, não será surpresa se nos próximos dias eu lhe
aparecer num desses programas sensacionalistas de televisão sendo filmado
junto com outros companheiros de trabalho que também viraram mendigos, na
cracolândia, ingerindo alucinógenos a fim de fugir da nossa realidade
indignificante dessa droga de educação que propõe o seu governo.
Senhor José Serra, não se incomode se nos próximos dias o meu rosto e os
rostos de outros companheiros aparecerem estampados na primeira capa dos
principais jornais do nosso Estado, por termos sido presos no flagra por
roubo à mão armada, porte ilegal de arma, formação de quadrilha e tráfico
de drogas. Espero que o senhor nos entenda, é que o desemprego atingiu
grande parte da categoria do professorado paulistano e vários colegas
também acabaram rodando.
Senhor governador, não se incomode se nos próximos dias, quando sairmos
vivos da penitenciária, (caso exista essa possibilidade) nós voltemos a
roubar, ou a matar, e a aumentar as estatísticas.
Talvez o único emprego que nos resta seja o de dar fim aos corpos para
reduzir os polêmicos números da violência em nosso Estado, para não pegar
tão mal para o seu lado, afinal é ano de eleição, vossa excelência não
gostaria de prejudicar o seu partido. Não é mesmo grande homem?
E governador, não se espante se de repente eu possa lhe surpreender numa
dessas cerimônias oficiais de inauguração de obras e apontar um revólver
para o meio da sua testa, e na iminência de disparo da bala que fará
romper a sua caixa craniana e fixar parte dos seus neurônios em algum
ponto do local onde estivermos, não hesitarei em procurar uma resposta
para a minha indignação: o que o senhor entende por educação?
Tenho absoluta certeza de que a resposta não sairá com palavras. Ali mesmo
serei brutalmente dominado por sua segurança público-privada e o sentido
do disparo será invertido. Enquanto agonizo no chão, pensarei na única
resposta que um velho pedagogo libertário deixou em algum livro empoeirado
na estante de algum intelectual: "os opressores roubam dos oprimidos suas
palavras, suas expressividades, suas culturas". E no último suspiro
acrescento: os opressores nos roubam as nossas vid...
Senhor José Serra, não se surpreenda se de repente na revista Caros Amigos
vossa excelência se depare com um texto insultuoso, ameaçador, indignado e
desesperançoso, contra a sua política educacional, pois não se trata de
ofensa pessoal, mas sim de uma posição legitimamente política. Vossa
excelência deverá compreender que também não se trata de um pedido
desesperador de emprego, pois não pratico mendicância institucional.
Deverá entender que apenas exijo aquilo a que o direito unioversal
corresponde: dignidade e respeito aos seres humanos.
Não me surpreenderei caso este texto também não seja lido por vossa
excelência, afinal de contas este tipo de literatura não interessa e não
incomoda a ninguém.
John Richardson é professor desempregado.
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